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CELULAR: companhia constante ou fuga silenciosa? Um olhar da psicanálise sobre o uso excessivo das telas
Nunca estivemos tão conectados. O celular está presente desde os primeiros minutos do dia até os últimos instantes antes de dormir. Ele informa, entretém, aproxima pessoas e facilita inúmeras tarefas. Mas quando essa presença constante deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar espaços importantes da vida emocional?
Na clínica, cada vez mais chegam relatos de crianças, adolescentes e adultos que demonstram dificuldades para lidar com o tédio, a espera, a frustração e até mesmo com os próprios pensamentos. Em muitos casos, o celular se tornou uma espécie de refúgio imediato para qualquer desconforto emocional.
A psicanálise nos convida a refletir sobre algo simples: o ser humano precisa aprender a lidar com suas emoções. Sentimentos como tristeza, ansiedade, solidão, insegurança ou frustração fazem parte da vida. Eles não são problemas a serem eliminados, mas experiências que precisam ser compreendidas e elaboradas.
O que acontece é que as telas oferecem uma distração rápida e constante. Ao sentir desconforto, muitas pessoas recorrem automaticamente ao celular. Alguns minutos nas redes sociais, vídeos curtos ou jogos podem trazer alívio momentâneo. O problema surge quando esse comportamento se torna a principal forma de lidar com as emoções.
Para as crianças, a situação merece atenção especial. A infância é o período em que se desenvolvem habilidades fundamentais, como a capacidade de brincar, imaginar, criar, esperar e aprender a administrar frustrações. Quando a tela ocupa grande parte desse espaço, experiências importantes para o amadurecimento emocional podem ser reduzidas. Não por acaso, pesquisas em neuroimagem publicadas na revista científica JAMA Pediatrics observaram que crianças com elevado tempo de exposição às telas apresentavam alterações em áreas cerebrais relacionadas à linguagem, à alfabetização e a outras habilidades cognitivas.
O alerta também tem sido feito por especialistas internacionais. O neurocientista francês Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais, argumenta que o uso recreativo excessivo de telas pode prejudicar o desenvolvimento da atenção, da linguagem e das interações sociais. Sua principal preocupação não é a tecnologia em si, mas o tempo que ela ocupa de experiências fundamentais para o desenvolvimento humano.
Já entre os adolescentes, as redes sociais introduzem outro desafio: a comparação constante. Em um ambiente onde todos parecem felizes, bonitos e bem-sucedidos, muitos jovens passam a acreditar que estão sempre aquém dos outros. Isso pode gerar sentimentos de inadequação, ansiedade e baixa autoestima. O psicólogo Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa, chama atenção para a substituição gradual de uma infância baseada em brincadeiras, convivência e exploração do mundo real por uma infância mediada por smartphones e redes sociais, fenômeno que tem sido associado ao aumento dos índices de ansiedade e sofrimento emocional entre jovens.
Na prática clínica, também é comum observar dificuldades de concentração, irritabilidade e uma necessidade crescente de estímulos imediatos. Afinal, o cérebro se acostuma à velocidade das notificações, dos vídeos curtos e das recompensas instantâneas. Aos poucos, atividades que exigem mais tempo e dedicação podem parecer menos interessantes. Neurocientistas explicam que esse padrão estimula repetidamente os circuitos cerebrais ligados à recompensa, favorecendo uma busca constante por novidades e gratificações rápidas.
A neurocientista britânica Susan Greenfield alerta que o ambiente digital intenso e acelerado pode influenciar a forma como os jovens desenvolvem atenção, empatia e habilidades de relacionamento. Embora os estudos continuem avançando, o consenso entre especialistas é que o excesso de telas merece atenção e equilíbrio.
Isso significa que o celular é um inimigo? Certamente não. A tecnologia trouxe avanços importantes e faz parte da vida moderna. O desafio está em estabelecer uma relação saudável com ela.
Talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo passamos diante das telas, mas o que estamos deixando de viver enquanto elas ocupam nossa atenção. Estamos conversando? Estamos ouvindo nossos filhos? Estamos criando memórias, desenvolvendo habilidades e construindo relações reais?
O celular pode aproximar quem está longe. Mas nenhuma tecnologia substitui o olhar atento, a conversa sincera, o brincar livre e os vínculos afetivos que sustentam o desenvolvimento emocional.
Encontrar equilíbrio entre o mundo digital e a vida real é um dos grandes desafios do nosso tempo. E talvez seja também uma das maiores formas de cuidado com a saúde mental das próximas gerações.
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