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Sem teto não há Evangelho

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Foto de Divulgação

03/03/2026 (terça-feira)
Por Willian Souza, ex-Presidente da Câmara de Vereadores de Sumaré.

Quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou a Campanha da Fraternidade
2026 com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1:14),
não apresentou apenas uma reflexão espiritual para a Quaresma. Apresentou um teste de
coerência. Se acreditamos que Deus escolheu ter endereço na história humana, não
podemos aceitar que milhões de brasileiros, ou nossos irmãos e irmãs de Sumaré, vivam
sem endereço algum. Para quem construiu, como eu, sua vida pública ao lado de ocupações
urbanas e comunidades ameaçadas de despejo, essa campanha é a confirmação de uma
convicção antiga: moradia é direito, e defendê-la é viver o Evangelho.
Desde os 11 anos de idade aprendi na prática que déficit habitacional não é número em
planilha. É a panela que ferve num fogareiro improvisado. É a mãe que teme a chuva porque
sabe que o lar onde protege seus filhos pode não resistir à força das águas. É o trabalhador
que acorda às quatro da manhã porque a cidade o expulsou para a periferia distante. O
Evangelho não permite neutralidade diante disso. Quando João escreve que o Verbo “armou
sua tenda” entre nós, ele fala de precariedade assumida, longe do conforto garantido. Cristo
não nasceu sob laje regularizada; nasceu como perseguido político sob teto improvisado, e
morreu por defender os pobres.
Há quem diga que tratar de moradia é “misturar fé com ideologia”. Eu digo o contrário: é
separar fé de privilégio. O direito à casa integra o direito à vida, como diz nossa Constituição
laica e cidadã. Sem moradia digna, não há saúde, não há segurança, não há estudo, lazer ou
trabalho estável. Defender políticas públicas de habitação popular, regularização fundiária,
urbanização de favelas e combate à especulação imobiliária não partidariza o altar; ao
contrário, retira-o da indiferença. A Doutrina Social da Igreja sempre ensinou que a
propriedade privada tem função social. O que falta é coragem política para aplicar o
princípio.
Por isso o símbolo do “Cristo sem-teto” no cartaz da campanha é, antes de qualquer coisa,
uma denúncia profética. Ele está deitado no banco da praça, invisível aos apressados. Quem
já varou madrugadas em vigília contra reintegração de posse, como tantas vezes fizemos em
Sumaré, sabe que essa imagem não é alegoria. Cada ordem de despejo que cumpre
formalidades legais, mas ignora a dignidade humana, revela uma contradição estrutural. A
Lei deve proteger a vida antes de proteger o patrimônio especulativo. Quando isso não
acontece, a injustiça deixa de ser exceção para se tornar método.
Minha trajetória política foi forjada em assembleias de núcleos comunitários. Vi famílias
erguerem suas próprias casas em mutirões solidários, partilhando cimento, comida e
esperança. Ali compreendi que moradia é também comunidade. Mais do que parede; é

pertencimento. A esquerda que abandona essa agenda trai sua base. A Igreja que se cala
diante da desigualdade trai o Evangelho. Não há caminho honesto fora desse encontro entre
fé encarnada e justiça social.
É verdade que num país com tanta casa sem gente, e tanta gente sem casa, a pauta da
moradia exige enfrentamento. Enfrentamento de interesses econômicos poderosos, de
estruturas urbanas excludentes, de narrativas que criminalizam a pobreza. Mas o
cristianismo nunca foi religião de acomodação. Jesus confrontou autoridades quando elas
oprimiam os pequenos. Segui-Lo implica desconforto. A Campanha da Fraternidade 2026
nos recorda que espiritualidade sem compromisso concreto é abstração que não vai além da
conveniência.
“Ele veio morar entre nós.” Essa frase não deve ficar restrita ao calendário litúrgico. Precisa
ecoar nas políticas públicas, nas câmaras municipais, nos parlamentos, nos conselhos
urbanos, nas comunidades que formam a base da sociedade. Se Cristo continua batendo à
porta nas periferias, cabe a nós abrir. E abrir significa organizar, conscientizar, legislar,
intervir, priorizar. Enquanto houver famílias sem teto digno, a missão cristã estará
inacabada. A fé que não edifica lares acaba construindo muros.

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