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🐘 SANDRO FOI PROTEGIDO OU SUBMETIDO A UM RISCO QUE PODERIA TER SIDO EVITADO? A PRÓXIMA MORTE NESTE SANTUÁRIO?

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Imagem Pública Internet

Elefante idoso deixou Sorocaba após 44 anos e iniciou viagem de mais de 1.600 km para um “santuário” que chegou a ser impedido de receber novos animais em 2026. Documentos mostram que a discussão não era simplesmente sobre maus-tratos: profissionais que cuidavam de Sandro foram reconhecidos no processo, enquanto problemas apontados envolviam estrutura, espaço e isolamento. A pergunta é inevitável: antes de transportar o animal, todas as alternativas para protegê-lo onde já vivia foram realmente esgotadas?

Esta matéria não é uma defesa de zoológicos. Não é uma defesa da Prefeitura de Sorocaba. Não é uma defesa do Santuário de Elefantes Brasil.

É uma defesa de Sandro.

Um elefante asiático de aproximadamente 54 anos, capturado ainda filhote, que passou por circo e viveu desde 1982 no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba.

Na quarta-feira (16), Sandro entrou voluntariamente em uma caixa especialmente preparada e deixou o lugar onde viveu por aproximadamente 44 anos. Seu destino é o Santuário de Elefantes Brasil (SEB), em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.

São pouco mais de 1.600 quilômetros, numa viagem estimada em cerca de dois dias e meio. Nesta quinta-feira (17), o Santuário informou que Sandro estava aproximadamente na metade do percurso, tranquilo e em boas condições.

Mas, depois de analisar documentos do processo judicial, laudo pericial, decisões e acontecimentos posteriores à perícia, o Auge1 encontrou perguntas que merecem respostas.

Porque proteger um animal também significa perguntar se a solução escolhida representava efetivamente o menor risco possível para aquele indivíduo.

🐘 NÃO HÁ UMA CONDENAÇÃO DOS TRATADORES QUE CUIDARAM DE SANDRO POR DÉCADAS

Esse é um ponto essencial.

A discussão judicial não pode ser simplificada como se Sandro tivesse sido simplesmente retirado das mãos de pessoas que o maltratavam.

O próprio laudo do perito judicial reconheceu os esforços realizados pelo Zoológico de Sorocaba, embora tenha concluído que a estrutura disponível era insuficiente para as necessidades de um elefante idoso.

O perito apontou problemas relacionados ao espaço, mobilidade, ausência de exames complementares suficientes, manejo veterinário, isolamento social e ausência de determinadas estruturas. Sua conclusão foi que o ambiente do Santuário ofereceria melhores condições de bem-estar.

A Prefeitura, por sua vez, afirma que Sandro recebia acompanhamento de veterinários e biólogos e manejo alimentar, comportamental e sanitário específico para sua condição de animal idoso.

Portanto, existe uma distinção fundamental:

uma coisa é questionar a estrutura onde Sandro vivia. Outra é afirmar que as pessoas que cuidavam dele durante décadas não cuidavam do animal.

Os documentos consultados não autorizam essa simplificação.

🏗️ SE O PROBLEMA ERA A ESTRUTURA, POR QUE NÃO CORRIGIR A ESTRUTURA?

É aqui que começa uma das principais questões.

Entre as deficiências apontadas pela perícia estava a falta de estrutura adequada para determinados procedimentos veterinários e exames.

Sorocaba passou posteriormente a realizar melhorias no recinto e informou que pretendia continuar investindo nas adequações necessárias.

Isso não significa que uma reforma simples resolveria todos os problemas.

Existe uma questão particularmente difícil: Sandro estava sozinho desde a morte da elefanta Haisa, em 2020.

Elefantes são animais altamente sociais, e a perícia considerou esse isolamento um componente importante na avaliação do bem-estar.

Também há uma diferença enorme de espaço entre aquilo que estava disponível no zoológico e o ambiente oferecido pelo Santuário.

Mas exatamente por estarmos falando de um animal idoso, existe uma pergunta que deveria estar no centro da discussão:

Foi produzido um estudo comparativo completo entre adequar radicalmente o espaço de Sandro em Sorocaba e transportá-lo por 1.600 quilômetros?

Quanto custaria ampliar e modernizar o recinto?

Qual área poderia ser incorporada?

Quais adaptações eram tecnicamente impossíveis?

Haveria possibilidade de receber outro elefante compatível para companhia?

Quanto tempo isso levaria?

E, principalmente, qual das alternativas apresentava menor risco individual para Sandro?

Na documentação examinada pelo Auge1, encontramos uma conclusão pericial de que o Santuário oferecia condições superiores.

Mas isso não é exatamente a mesma coisa que demonstrar que todas as possibilidades razoáveis de adequação em Sorocaba eram inviáveis.

⚠️ O PRÓPRIO LAUDO RECONHECIA QUE O RISCO DA VIAGEM NÃO PODIA SER COMPLETAMENTE ELIMINADO

Sandro não é um animal jovem.

E ninguém pode ignorar o que significa colocar um elefante geriátrico em uma caixa sobre um caminhão para percorrer mais de 1.600 quilômetros.

O próprio perito judicial reconheceu que o transporte possui riscos inerentes.

Sua conclusão foi que esses riscos poderiam ser minimizados pela preparação do animal, pela experiência da equipe e pelo plano de transporte do Santuário.

E Sandro realmente entrou voluntariamente na caixa após um processo de adaptação.

Isso é importante e precisa ser reconhecido.

O problema é outro.

O mesmo laudo registrou que a ausência de exames complementares detalhados impedia uma avaliação precisa da condição de saúde do elefante.

Então surge uma questão extremamente delicada:

Se não existiam exames suficientes para conhecer completamente a condição clínica de Sandro, como determinar com máxima segurança o risco individual de submetê-lo a uma viagem dessa magnitude?

A experiência anterior da equipe transportadora é relevante.

Mas Sandro não é uma estatística.

É um indivíduo com idade, histórico, condições clínicas e décadas de adaptação próprias.

🧠 44 ANOS DE ROTINA TAMBÉM NÃO PODEM SER IGNORADOS

Existe ainda o aspecto comportamental.

Sandro chegou ao Zoológico de Sorocaba em 1982.

São aproximadamente 44 anos reconhecendo pessoas, sons, cheiros, horários, estruturas e rotinas daquele ambiente.

Isso não significa que um animal deva permanecer eternamente em uma instalação inadequada simplesmente porque se acostumou com ela.

Mas também seria simplista presumir que romper uma rotina construída durante quatro décadas seja irrelevante para seu bem-estar.

A própria preparação para a transferência reconheceu essa necessidade de adaptação.

A caixa chegou antes, Sandro teve tempo para conhecê-la e foi utilizado reforço positivo para que entrasse voluntariamente.

Foi uma medida correta de redução de risco.

Ainda assim, permanece a pergunta maior:

o benefício esperado no destino compensa o impacto de retirar um animal idoso do ambiente, dos profissionais e da rotina que conhece há quase toda a vida adulta?

A Justiça, apoiada na perícia, concluiu que sim.

Mas acontecimentos posteriores ao laudo tornam legítimo perguntar como essa avaliação foi atualizada.

🚨 O “SANTUÁRIO” CHEGOU A SER PROIBIDO DE RECEBER NOVOS ELEFANTES

Este ponto precisa ser tratado com responsabilidade — mas não pode ser omitido.

Em dezembro de 2025, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso suspendeu cautelarmente a autorização do Santuário de Elefantes Brasil para receber novos animais.

A medida ocorreu depois de mortes registradas no local.

Segundo levantamento publicado pela Folha, quatro elefantes morreram menos de um ano depois de chegarem ao Santuário entre 2019 e 2025.

Foram eles:

Ramba, que morreu aproximadamente dois meses após chegar em 2019;

Pocha, transferida em maio de 2022 e morta em outubro;

Pupy, que chegou em abril de 2025 e morreu em outubro;

e Kenya, que viveu aproximadamente cinco meses no local após sua transferência em julho de 2025.

Isso não significa que o Santuário tenha provocado essas mortes.

Essa distinção é indispensável.

A instituição sustenta que os animais chegaram idosos, com doenças e histórico de décadas em condições inadequadas, e que os óbitos tiveram causas diferentes, sem nexo epidemiológico comum. O próprio Ibama reconheceu que muitos dos elefantes encaminhados ao local são geriátricos e apresentam comorbidades.

Mas o fato de não existir prova de responsabilidade do Santuário não torna as mortes irrelevantes para uma avaliação de risco.

🔎 O IBAMA DISSE QUE AS MORTES “NÃO PASSARAM DESPERCEBIDAS”

Na época da suspensão, o Ibama afirmou que ainda não era possível dizer se os animais mortos haviam sido vítimas de manejo inadequado.

Mas acrescentou que a quantidade de óbitos era objeto de apuração.

A Sema exigiu análise do cumprimento de protocolos de biossegurança e padrões de manejo.

Posteriormente, em fevereiro de 2026, a autorização para receber novos animais foi restabelecida. O Ibama informou que faria vistoria conjunta depois da análise documental.

E aqui está um ponto cronológico fundamental:

O laudo pericial que recomendou a transferência de Sandro foi produzido em fevereiro de 2025.

As mortes de Pupy e Kenya e a suspensão cautelar ocorreram depois.

Mas o TJ-SP julgou a apelação somente em 18 de junho de 2026 e manteve a transferência.

Portanto, quando o Tribunal tomou sua decisão, a suspensão e os acontecimentos posteriores à perícia já haviam ocorrido.

A pergunta documental que permanece é:

QUAL PESO ESSES FATOS NOVOS TIVERAM NA REAVALIAÇÃO DO RISCO PARA SANDRO?

🌳 “SANTUÁRIO” NÃO SIGNIFICA AUSÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO

Há outro detalhe pouco conhecido.

Segundo o próprio Ibama, “santuário” não constitui categoria jurídica específica na legislação ambiental brasileira.

No enquadramento ambiental citado pelo órgão, o estabelecimento funciona como criadouro científico de fauna; “Santuário de Elefantes Brasil” é a denominação utilizada pela instituição e corresponde ao modelo de manejo que ela defende.

Isso não diminui a qualidade do trabalho realizado.

Mas ajuda a retirar uma carga emocional perigosa da discussão.

Um lugar chamado “santuário” não deve ser presumido automaticamente como perfeito.

Da mesma maneira, um zoológico não deve ser presumido automaticamente como cruel.

Bem-estar animal precisa ser demonstrado por evidências, fiscalização, indicadores veterinários e resultados — independentemente do nome escrito na entrada.

🌎 E NÃO: UMA “ONG GRINGA” SIMPLESMENTE NÃO TOMOU SANDRO

Outra narrativa precisa ser corrigida.

O Santuário de Elefantes Brasil é uma associação brasileira, instalada em Chapada dos Guimarães.

Possui conexões e cooperação internacional no movimento de proteção de elefantes, mas Sandro não foi simplesmente entregue a uma ONG estrangeira.

Mais importante: não foi uma ONG que unilateralmente decidiu retirar Sandro do zoológico.

O processo judicial é uma Ação Civil Pública promovida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo contra o Município de Sorocaba.

O próprio sistema do TJ-SP registra a participação do Ministério Público, Prefeitura, ANDA, Olhar Animal, Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Associação Os Animais Importam e Associação Santuário de Elefantes Brasil em diferentes posições processuais.

Foi o Poder Judiciário que determinou a transferência.

⚖️ E A PREFEITURA LUTOU PARA MANTÊ-LO

Também não é correto afirmar que Sorocaba simplesmente abandonou Sandro.

A Prefeitura recorreu.

O processo registra recursos, pedidos de tutela, Recurso Especial e Recurso Extraordinário apresentados em setembro.

O Município sustentou que Sandro estava adaptado, recebia cuidados técnicos e que a viagem de mais de 1.600 quilômetros representava risco para um animal idoso.

Também informou que melhorias estavam sendo realizadas no recinto.

A Justiça analisou os argumentos e manteve a transferência.

Isso precisa ser respeitado.

Mas respeitar uma decisão judicial não significa proibir perguntas sobre a decisão.

🐘 NO FINAL, QUEM PRECISA ESTAR CERTO É SANDRO

Essa talvez seja a parte mais importante de toda essa história.

Sandro não sabe o que é Ministério Público.

Não conhece Prefeitura.

Não sabe o que significa ONG.

Não conhece Ibama, Sema, CRMV ou Tribunal de Justiça.

Não entende recursos, perícias, sentenças ou disputas institucionais.

Ele simplesmente depende das decisões que humanos tomam em seu nome.

E por isso a pergunta não deveria ser:

Quem venceu o processo?

Nem:

Prefeitura ou Santuário?

Muito menos:

zoológico ou ONG?

A pergunta deveria ser:

QUAL DECISÃO REPRESENTAVA O MENOR RISCO E O MAIOR BEM-ESTAR POSSÍVEL PARA SANDRO?

Se a resposta era transferi-lo, então que os documentos demonstrem por que reformar e ampliar sua estrutura em Sorocaba era insuficiente.

Se permanecer representava risco maior, que isso seja tecnicamente demonstrado.

Se transportar era mais seguro, que os exames clínicos sustentem essa conclusão.

E se acontecimentos posteriores levantaram novas dúvidas sobre o destino escolhido, que fique claro como essas informações foram consideradas antes da transferência.

🚨 PROTEGER ANIMAIS TAMBÉM É QUESTIONAR QUEM DIZ ESTAR PROTEGENDO

Essa talvez seja a maior lição do caso.

Defesa animal não pode ser uma disputa de narrativas.

Não basta uma Prefeitura afirmar que cuidava bem.

Não basta uma ONG afirmar que oferece uma vida melhor.

Não basta chamar um espaço de zoológico para condená-lo.

E também não basta chamá-lo de santuário para considerá-lo automaticamente superior.

Todos precisam prestar contas quando a vida e o bem-estar de um animal dependem de suas decisões.

Sandro passou praticamente toda a vida sendo decidido por seres humanos.

Foi capturado ainda filhote.

Foi levado para outro continente.

Passou por circo.

Foi levado para um zoológico.

Viveu décadas em Sorocaba.

E, aos aproximadamente 54 anos, voltou a ser colocado em uma caixa e levado para outro lugar.

Desta vez, a promessa é de uma vida com mais espaço, natureza, escolhas e possibilidade de interação com outros elefantes. O laudo judicial considerou o novo ambiente superior e a viagem está, até o momento, transcorrendo tranquilamente, segundo o Santuário.

Que essa promessa se cumpra.

E que Sandro tenha muitos anos para demonstrar que a decisão tomada em seu nome realmente valeu o risco.

Porque, depois de tudo que esse animal já viveu, o mínimo que lhe devemos é colocar seu bem-estar acima das instituições, das narrativas e da necessidade humana de provar quem estava certo.

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Fonte: Tribunal de Justiça de São Paulo; processo nº 1010896-59.2022.8.26.0602; laudo pericial judicial de Alex Fonseca de Andrade; Prefeitura de Sorocaba; Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso; Ibama; Santuário de Elefantes Brasil; Folha de S.Paulo; Jornal Cruzeiro do Sul.

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