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Corrida Integração: quando o esporte deixa de ser individual e se torna coletivo

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O asfalto quente, o som dos tênis batendo no chão e a respiração acelerada formam a trilha sonora de uma corrida de rua. Entre milhares de corredores, cada um carrega sua própria batalha: um busca tempo, outro superação, outro apenas o prazer de estar em movimento. Mas há algo maior que conecta todos eles. Ao longo de 40 anos, a Corrida Integração deixou de ser apenas uma prova para se tornar um ponto de encontro — onde amizades nascem, gerações se cruzam e campeões encontram inspiração.

Mais do que chegar à linha de chegada, correr em grupo é transformar esforço individual em energia coletiva. E é nesse espírito que histórias como as do CUCA (Corredores Unidos de Campinas) e da Funilense continuam a ecoar, misturando pioneirismo, conquistas e emoção.

A corrida que conecta jovens e veteranos

O rosto suado do estudante Daniel Lopes Guerreiro, de 17 anos, reflete a empolgação de quem ainda descobre os próprios limites. Ele não começou sozinho: foi a família quem o trouxe para o mundo das corridas. “Como eu via eles correndo, pra não ficar sozinho no final de semana, eu vim acompanhar e aí peguei gosto”, relembra.

Na mesma pista está o aposentado João Batista Tinareli, 82 anos, que aprendeu há décadas que fé e movimento caminham juntos. “Sempre lendo a Bíblia, despertou que eu tinha que fazer exercício. Exercício é a saúde do corpo. Quando eu vi, eu estava correndo 10, 20 quilômetros”.

A diferença de idade entre os dois parece desaparecer quando cruzam a mesma linha de largada. Um aprende resistência e disciplina, o outro compartilha sabedoria e inspiração.

“Fico feliz em vê-los praticando esporte. Assim eles podem chegar com a mesma qualidade de vida que eu conquistei”,

afirma João Batista.

Daniel concorda: sozinho, a corrida pesa mais. “É muito legal, eu reaprendi muito com eles, como ajeitar a postura, a respiração. Correr em grupo é sempre melhor. Você sente a pessoa do seu lado, ela vai puxando o seu ritmo”.

CUCA: o início de uma história de integração

Em 1983, quando correr pelas ruas ainda parecia um hábito de poucos, nasceu o CUCA. A ideia surgiu de uma paixão.

“Veio aquela ideia: poxa, por que a gente não monta, não cria uma associação que possa reunir esses atletas, levá-los em corridas, facilitar inscrições em provas? Aliás, eram muito poucas, era difícil você saber onde estava tendo corrida”,

recorda Claudemir Cerone, fundador do Cuca.

O cenário era quase improvisado: provas com pouco mais de 50 participantes, percursos sem sinalização e escassez até de água.

“Naquela época, você participava de corridas com 50 atletas, 100 atletas. Não tinha água para todo mundo no percurso. Eu tive que pular o muro de uma casa, abrir a torneira e tomar água para matar a sede. O percurso não era sinalizado, você errava o caminho… teve uma prova que eu errei o caminho e foi difícil encontrar a chegada”,

conta Claudemir.

Um ano depois, em 1984, o CUCA já estava lado a lado com a Corrida Integração. Daquele momento em diante, a história da associação e a da prova se entrelaçaram, crescendo juntas.

“A partir daí, todos os anos nós estávamos envolvidos com a Integração, e as reportagens englobando a nossa associação”.

Funilense e Orcampi: do auge à continuidade

Se o CUCA foi pioneiro, a Funilense mostrou a força de Campinas no cenário nacional. Entre 1990 e 2010, transformou-se em referência, conquistando títulos consecutivos e revelando atletas de renome internacional.

“Eu tive sempre uma paixão pelo esporte. Tinha um time de futebol da Usina Ester e aí fizemos uma equipe de funcionários, de gente que morava na cidade, e foi crescendo, crescendo, crescendo… até chegar a uma potência. De 1990 a 2010, foi sempre o clube que mais atletas tinha nas seleções olímpicas”,

conta o empresário Sérgio Luís Coutinho Nogueira.

Por ali passaram nomes que marcaram gerações. “Maurren Maggi, que foi campeã olímpica no salto em distância, a Fabiana Murer, que depois foi campeã mundial no salto com vara…”, relembra.

 E, entre os corredores da Integração, um tricampeão que conquistaria o mundo: Vanderlei Cordeiro de Lima.

Hoje, o espírito da Funilense pulsa na Orcampi, que atende mais de 400 atletas em Campinas. Estrutura física moderna, treinadores, fisioterapeutas e recursos humanos especializados dão forma ao sonho coletivo.

“Nós temos uma estrutura muito legal, tanto do ponto de vista físico quanto de recursos humanos. Carregamos o DNA da antiga Funilense, que é identificar, revelar e desenvolver talentos do atletismo”,

explica o gestor Ricardo Antonio D’Angelo.

Sonhos que se renovam a cada passada

Entre os talentos da Orcampi está a velocista Tiffani Marinho, dona de um currículo impressionante.

“Eu fui cinco vezes seguidas campeã do campeonato nacional, bicampeã sul-americana indoor e outdoor, participei de duas Olimpíadas, sou medalhista pan-americana e por aí a gente vai indo”,

afirma.

E a escolha pela Orcampi não foi por acaso. “Aqui você tem tudo: pista boa, treinador, fisioterapeuta, academia, estrutura, material… coisas que em vários lugares não têm. A gente tem que se dedicar mais, tem que estar bem focado para que todo esse esforço valha a pena e cada um chegue aos seus objetivos”.

Mas se o alto rendimento exige disciplina e foco, a essência da corrida é universal: dar o próximo passo.

“Quando a gente faz um resultado ruim, ficamos tristes, mas no outro dia tem que treinar, tem que fazer. A felicidade é igual. Você conquista uma medalha, passam dois dias e já gerou outro objetivo”,

explica Tiffani.

Essa lição também foi aprendida por Amanda Silva, que começou a correr por recomendação médica e encontrou no grupo o que faltava para seguir firme.

“Você tem que começar aos poucos. No início você vai só caminhando, depois você dá uns trotes… é uma coisa minha mesmo, não é ser melhor que ninguém, é ser melhor que eu mesma amanhã e depois”.

A corrida como metáfora de vida

Para uns, é saúde. Para outros, performance. Para muitos, companhia. Mas, em comum, todos descobrem que a corrida é metáfora da própria vida: passo após passo, objetivo após objetivo, queda e recomeço.

Como resume João Batista, que já viu gerações passarem pelo esporte, mas continua apaixonado: “A corrida é vida. Hoje você dá um passo, amanhã um a mais… não tem fim”.

** Com informações de Wesley Justino/EPTV Campinas

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