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🧩⚕️ Adultos autistas relatam abandono no SUS de Sumaré e cobram ampliação da Casa do Autista para todas as idades
Moradora afirma que pessoas com TEA na fase adulta não conseguem avaliação neuropsicológica, terapias especializadas nem atualização de laudos pelo SUS; Prefeitura diz que ampliação faz parte do planejamento da rede
A inauguração da Casa do Autista de Sumaré, no fim de julho, representou um avanço importante para centenas de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que aguardavam atendimento especializado. Entretanto, a nova estrutura também trouxe à tona uma antiga reivindicação: a falta de assistência específica para adolescentes, adultos e idosos autistas na rede pública municipal.
A principal cobrança parte da moradora Sueli Semenssatto, de 52 anos, residente no Jardim Paulistano, que afirma enfrentar dificuldades para conseguir atendimento especializado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e sustenta que pessoas com TEA na vida adulta permanecem praticamente invisíveis dentro das políticas públicas do município.
Segundo ela, apesar da importância da Casa do Autista para o público infantil, o autismo não desaparece quando a criança cresce.
“Enquanto a gente é criança, a gente consegue tratamento para o autismo. Porém, quando o autista cresce, se torna adulto e velho, somos jogados para escanteio.”
🧠 Falta de avaliação neuropsicológica
Uma das principais reclamações diz respeito à inexistência, segundo a moradora, de avaliação neuropsicológica para adultos na rede municipal.
Ela afirma que muitos pacientes precisam recorrer à rede particular para conseguir laudos atualizados, frequentemente exigidos para processos administrativos e pedidos de benefícios assistenciais.
“Aqui na cidade de Sumaré não existe neuropsicólogo para fazer o teste de autismo atualizado para que a gente consiga dar entrada num LOAS. Você tem que pagar particular. É uma vergonha isso.”
A avaliação neuropsicológica pode ser importante em determinadas situações clínicas e administrativas, embora a necessidade desse exame dependa da avaliação médica de cada caso.
👥 “Não existe criança autista. Existe ser humano autista.”
Para Sueli, a principal falha das políticas públicas está em concentrar praticamente toda a estrutura especializada na infância.
“Fizeram a Casa do Autista, porém as pessoas adultas e velhos são excluídas desse projeto.”
Ela resume sua crítica em uma frase que tem repercutido entre famílias de pessoas com TEA.
“Não existe criança autista. Existe ser humano autista. O ser humano autista nasce autista, se torna adolescente, adulto, fica velho e morre autista.”
🩺 Diagnóstico tardio e dificuldades no SUS
A moradora também relata dificuldades para conseguir reconhecimento de sua condição durante atendimentos na rede pública.
Segundo ela, precisou recorrer ao SUS após perder o emprego e deixar de ter condições financeiras para consultas particulares.
“Psiquiatras do SUS não reconhecem um adulto autista quando ele chega em consulta. Foi o meu caso. Eles ignoram totalmente os sintomas.”
O diagnóstico do TEA em adultos costuma apresentar desafios adicionais, especialmente em pessoas que passaram décadas sem avaliação especializada ou desenvolveram mecanismos de adaptação ao longo da vida.
💼 Reflexos no mercado de trabalho
Além da assistência médica, Sueli afirma que a falta de políticas públicas específicas repercute diretamente na inclusão profissional.
Segundo ela, muitos adultos autistas enfrentam dificuldades para permanecer empregados ou conseguir recolocação.
“O adulto precisa sobreviver. O autista paga aluguel, tem contas para pagar e muitas vezes é rejeitado por falta de informação sobre o autismo na vida adulta.”
Ela também defende campanhas permanentes de conscientização para combater preconceitos e ampliar o conhecimento da sociedade sobre o transtorno em todas as fases da vida.
🏥 Casa do Autista atende crianças
A Casa do Autista foi inaugurada pela Prefeitura em parceria com o Instituto São Lucas.
Segundo o município, a unidade foi criada para atender prioritariamente crianças com Transtorno do Espectro Autista.
A expectativa da administração é realizar aproximadamente 4 mil atendimentos mensais, reduzindo a fila de 471 crianças que aguardavam assistência especializada.
🏛️ Prefeitura diz que ampliação ocorrerá de forma gradual
Em nota encaminhada ao Portal Auge1, a Secretaria Municipal de Saúde informou que, nesta primeira etapa, a Casa do Autista atende prioritariamente crianças que aguardavam atendimento especializado.
Segundo a Prefeitura, adultos com TEA continuam sendo atendidos pela Rede Municipal de Saúde conforme suas necessidades clínicas.
Os casos relacionados à saúde mental são acompanhados pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), seguindo as diretrizes do Sistema Único de Saúde.
A administração informou ainda que está reestruturando a Rede de Atenção à Pessoa com Deficiência em parceria com instituições como a APAE e a Pestalozzi.
Segundo a Secretaria, esse planejamento contempla adolescentes, adultos e idosos com TEA.
A nota conclui afirmando:
“A implantação da Casa do Autista representa a primeira etapa desse processo de fortalecimento da assistência especializada. A ampliação da linha de cuidado para as demais faixas etárias integra o planejamento da administração e ocorrerá de forma gradual, conforme critérios técnicos, capacidade instalada e disponibilidade de recursos.”
💊 Falta de medicamentos também preocupa famílias
A discussão sobre o atendimento aos adultos ocorre em um contexto de outras reivindicações antigas de famílias atípicas em Sumaré.
O Portal Auge1 vem acompanhando, desde 2024, sucessivas reclamações relacionadas à falta de medicamentos destinados a pacientes com TEA na rede municipal.
Um dos casos mais emblemáticos envolve o Neuleptil 4%, utilizado em alguns pacientes conforme prescrição médica.
Segundo relatos de famílias e matérias já publicadas pelo Portal, o medicamento permanece indisponível na rede municipal há aproximadamente 23 meses, obrigando muitos responsáveis a adquirirem o produto em farmácias particulares para evitar interrupção do tratamento.
As reclamações também envolvem dificuldades para obtenção de outros medicamentos, consultas especializadas e continuidade terapêutica.
🔎 OLHAR DO PORTAL AUGE1
A inauguração da Casa do Autista representa, sem dúvida, um importante avanço para centenas de crianças que aguardavam atendimento especializado em Sumaré. Reduzir filas e oferecer diagnóstico precoce é uma medida relevante e necessária.
Mas a discussão levantada por adultos com TEA também merece atenção.
O autismo não deixa de existir aos 18 anos. A Constituição Federal garante o direito universal à saúde, e a Lei nº 12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, reconhece a pessoa com TEA como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, sem estabelecer limitação por idade. O cuidado em saúde deve ser organizado conforme a necessidade clínica de cada pessoa, em qualquer fase da vida.
Embora o SUS possua uma rede de atenção voltada à saúde mental e à pessoa com deficiência, permanece o desafio de estruturar linhas de cuidado específicas para adultos autistas, sobretudo diante do aumento dos diagnósticos tardios observado nos últimos anos.
Outro ponto que não pode ser ignorado é a continuidade do tratamento. Famílias de crianças e adolescentes vêm denunciando há quase dois anos a falta do medicamento Neuleptil 4% na rede municipal. Ainda que a indicação desse medicamento dependa de avaliação médica individual, sua ausência prolongada gera preocupação entre pacientes que dependem dele e acabam arcando com custos particulares.
Mais do que inaugurar novos equipamentos públicos, o desafio será garantir uma rede completa, contínua e integrada, capaz de atender a pessoa com TEA da infância à vida adulta, assegurando diagnóstico, terapias, medicamentos quando indicados, acompanhamento multiprofissional e inclusão social.
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