Política
Moraes e Vorcaro: o que a investigação revela sobre a relação entre o ministro e o dono do Banco Master
Documentos da investigação da Polícia Federal (PF), tornados públicos nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), detalham a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, o empresário Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado.
O material colocou Moraes no centro das atenções porque, segundo a PF, há registros que indicam que o ministro teve participação na análise e na alteração de um contrato milionário firmado entre o banco e o escritório de sua esposa.
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A investigação, porém, ainda não concluiu que houve crime ou irregularidade por parte de Moraes. O caso está sob análise no STF, e o escritório do ministro afirma que ele foi consultado apenas para verificar a existência de eventuais impedimentos legais.
O que chamou a atenção da PF?
Um dos principais pontos da investigação é um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, de propriedade de Viviane Barci de Moraes.
A negociação começou em janeiro de 2024. Segundo os documentos analisados pela PF, a advogada enviou a Vorcaro uma minuta do contrato em 11 de janeiro.
Os investigadores encontraram, nos metadados do arquivo, um registro indicando que a última alteração havia sido feita por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. Uma nova versão do documento, enviada dias depois, também apresentava registro de edição associado ao mesmo perfil.
Para a PF, esses registros indicam que Moraes não apenas tinha conhecimento do contrato, mas teria participado diretamente de sua elaboração. Essa é uma das questões que colocam o ministro em posição delicada na investigação.
Quanto valia o contrato?
O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, totalizando R$ 108 milhões.
Com a incidência de tributos, os pagamentos brutos chegavam a aproximadamente R$ 3,42 milhões por mês. O primeiro pagamento identificado pela investigação foi realizado em fevereiro de 2024.
Documentos apresentados posteriormente à CPI do Crime Organizado também apontaram repasses de mais de R$ 80 milhões ao escritório entre 2024 e 2025. O escritório, porém, contestou as informações divulgadas e afirmou que não confirma esses dados.
Como Moraes entrou em contato com Vorcaro?
Outro ponto revelado pela investigação envolve a aproximação entre o ministro e o banqueiro.
De acordo com a PF, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria foi responsável por apresentar Vorcaro a Moraes. Em 26 de dezembro de 2023, Faria teria enviado ao banqueiro o número de telefone do ministro por WhatsApp.
No celular de Vorcaro, o mesmo número aparecia registrado em quatro contatos diferentes: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”.
As mensagens analisadas pela PF também apontam para encontros entre os dois. Em uma das conversas, Faria fala sobre um almoço em Campos do Jordão e, posteriormente, sobre um jantar com Moraes e as respectivas esposas.
A proximidade chama a atenção dos investigadores porque esses contatos ocorreram no mesmo período em que Vorcaro negociava com Viviane Barci de Moraes o contrato de R$ 108 milhões.
Por que o contrato coloca Moraes em uma situação delicada?
O ponto central não é apenas o valor do contrato, mas a combinação de três elementos revelados pela investigação: a relação pessoal entre Moraes e Vorcaro, o contrato milionário entre o banco e o escritório da esposa do ministro e os registros digitais que indicam a participação de Moraes na edição do documento.
Essa combinação levantou questionamentos sobre eventual conflito de interesses e sobre a proximidade entre o magistrado e um empresário que posteriormente se tornou alvo de investigações.
É importante destacar, entretanto, que a existência de um contrato entre uma empresa e um escritório de advocacia não significa, por si só, que tenha ocorrido uma ilegalidade.
O que diz a defesa de Moraes?
O escritório Barci de Moraes afirma que Alexandre de Moraes foi consultado pelo setor de compliance da banca justamente por ser marido da sócia-diretora.
Segundo a defesa, o objetivo era verificar se havia algum impedimento legal para que o escritório assumisse a representação do Banco Master. A banca afirma que não existia previsão de atuação do escritório em processos no STF relacionados ao banco e que Moraes jamais julgou uma causa envolvendo o Banco Master.
Ainda segundo o escritório, após a verificação de que não havia impedimento legal, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios foram efetivamente prestados.
O caso já significa que Moraes cometeu alguma irregularidade?
Não. As informações divulgadas pela PF representam elementos de uma investigação, e não uma conclusão definitiva de que o ministro tenha cometido crime ou ato ilícito.
O que os documentos mostram é que Moraes tinha contato com Vorcaro, que os dois se encontraram e que um contrato milionário foi firmado entre o Banco Master e o escritório de sua esposa. Além disso, os investigadores identificaram metadados que associam o perfil do ministro à edição do contrato.
Cabe agora às autoridades avaliar se esses fatos configuram alguma irregularidade e se há elementos suficientes para responsabilização.
O ministro André Mendonça, responsável pelo caso no STF, determinou o levantamento do sigilo do material e encaminhou os documentos para manifestação da Procuradoria-Geral da República. A partir da análise do conteúdo, serão definidos os próximos passos da investigação.
Outro contrato de R$ 50 milhões
A investigação também encontrou informações sobre um segundo acordo envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes e empresas ligadas a Vorcaro.
Segundo a PF, o contrato teria valor de R$ 50 milhões e estaria relacionado a duas aeronaves, avaliadas em conjunto em cerca de US$ 6,8 milhões. O material indica que as negociações começaram em maio de 2025.
Esse segundo contrato amplia o conjunto de relações comerciais que está sendo analisado pelas autoridades.
O que acontece agora?
Com o fim do sigilo de parte dos documentos, o caso passa a ser analisado de forma mais ampla. A Procuradoria-Geral da República deverá avaliar o material encaminhado por Mendonça e se manifestar sobre a necessidade de novas providências.
Até o momento, portanto, o principal efeito da divulgação dos documentos é tornar público um conjunto de mensagens, registros digitais e contratos que detalham a relação entre Moraes, Vorcaro e o escritório da esposa do ministro.
A investigação ainda precisa determinar se houve apenas uma relação profissional e pessoal entre os envolvidos ou se os elementos encontrados configuram alguma irregularidade.
Mendonça quer levar ao plenário diálogos atribuídos a Vorcaro e Moraes
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu nesta terça-feira (1º) que as novas conversas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes sejam analisadas pelo plenário da Corte.
A sinalização do ministro ocorreu no despacho em que Mendonça retirou o sigilo de diálogos inéditos até então.
As conversas fazem citações aos nomes de Moraes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e foram extraídas a partir da quebra do sigilo do celular do ex-banqueiro, que é alvo das investigações da Operação Compliance Zero. A apuração investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.
Segundo Mendonça, que é relator do caso, o plenário da Corte é a “instância soberana” para analisar a questão.
“O caminho inevitável dos presentes autos leva ao plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”, afirmou o ministro.
Mendonça também defendeu que a sessão ocorra de forma “pública e transparente”.
“A aludida deliberação, pelo plenário da Corte, deverá ocorrer de forma pública e transparente, em sessão presencial do colegiado”, completou.
A decisão de colocar a questão em pauta cabe ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, responsável, regimentalmente, pela organização da pauta.
Com eventual deliberação, a Corte poderá analisar se Moraes pode ser investigado a partir das conversas.
No início deste ano, surgiram as primeiras mensagens que teriam sido trocadas entre Vorcaro e Moraes. O escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantinha contratos com o Banco Master.
Na ocasião, o ministro negou ter mantido conversas com o ex-banqueiro.
Com informações da Agência Estado e da Agência Brasil
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